"The Man", da Taylor Swift: Apenas mais uma Música Pop?
I'd be a fearless leader
I'd be an alpha type
When everyone believes ya
What's that like?
I'm so sick of running as fast as I can
Wondering if I'd get there quicker
If I was a man
“The Man“ da Taylor Swift, embora seja uma canção animada e cativante, revela-se como um meio muito eficaz para transmitir um comentário social relativamente duro acerca de um assunto sério: as percepções e estereótipos sociais que sublinham as desigualdades de género.
Através da sua letra, esta canção desafia as normas e papéis sociais tradicionais, bem como as expectativas atribuídas a cada género, enquanto, simultaneamente, destaca as vantagens e autoridade frequentemente atribuídas à masculinidade.
Assim, a sua narrativa envolvente oferece um terreno fértil para examinar a relação intrincada entre as desigualdades de género e Marketing, cuja prática pode tanto perpetuar esta questão, como promover o oposto: a igualdade de género.
A Igualdade de género, um direito humano fundamental, implica que pessoas de qualquer género sejam capazes de desfrutar de direitos, recursos, oportunidades e proteções iguais, estabelecendo-se, assim, como uma base essencial para um Mundo pacífico, próspero e sustentável.
No entanto, certas práticas de Marketing, como a Publicidade – cuja omnipresença na vida quotidiana das pessoas levou a que se tornasse uma importante forjadora de papéis sociais de género – têm, historicamente, reforçado, significativamente, estereótipos e normas de género prejudiciais, exibindo frequentemente uma gama limitada e muitas vezes ofensiva de representações femininas, frequentemente permeadas subtilmente com conotações de subordinação, domesticação e passividade, enquanto os homens são tipicamente retratados a desempenhar papéis profissionais, importantes e autónomos.
Porém, os homens, apesar de indubitavelmente serem o género privilegiado – um fato notavelmente abordado pela estrofe I'm so sick of running as fast as I can; Wondering if I'd get there quicker If I was a man, um frase que destaca, perfeitamente, as frustrações e desafios enfrentados pelas mulheres que lutam por igualdade numa sociedade dominada por homens – também encaram publicidade prejudicial, que apresenta afirmações limitadoras e estereotipadas sobre o que significa ser um “homem real” ou “de verdade“, levando-os e, às vezes até, forçando-os a, por exemplo, negligenciar as suas emoções, a inibir relacionamentos com outros homens e a impedir intimidade com crianças, para tentar viver de acordo com o ideal masculino atual.
Não obstante, o consenso geral é de que as mulheres são mais injustamente visadas, e a literatura tem mostrado consistentemente, não apenas como a representação das mulheres em papéis decorativos ou empoderados impacta (negativa e positivamente, respectivamente) as suas autoperceções, aspirações e desempenhos, mas também como, embora o propósito final dos anúncios seja promover – uma marca, um produto/serviço, uma causa... – eles também se tornam pontos de referência importantes, atuando como agentes socializantes e impactando o status das mulheres na sociedade, perpetuando atitudes, crenças e comportamentos negativos, e, em última análise, o ciclo de desigualdade de género.
Isto mostra como estas práticas de Marketing, desatualizadas e prejudiciais, acarretam muitas consequências destrutivas e não prósperas, e como é importante para os profissionais de Marketing terem preocupações de género em consideração.
Por exemplo, referindo-me, novamente à canção, já que os papéis de liderança são frequentemente associados a traços masculinos, como ser um “tipo alfa”, como mencionado na letra, isso implica que as mulheres são menos adequadas para tais posições, fazendo com que sejam sub-representadas em papéis de liderança em vários setores, desde a política até às empresas, reforçando ainda mais a crença social da superioridade masculina nessas funções, prolongando assim a desigualdade de género sistémica.
Ao analisar criticamente e reformular estas narrativas, os profissionais de Marketing podem desmantelar estereótipos prejudiciais e fomentar uma sociedade mais inclusiva, que valorize e reconheça formas diversas de liderança e sucesso, não atribuídas a nenhum género específico.
Aqui reside a grande capacidade do Marketing em promover a igualdade de género, ao desafiar estereótipos e oferecer novas narrativas.
Um exemplo de uma campanha específica, que realmente me marcou foi a Campanha #LikeAGirl da Always, uma campanha que desafiou as conotações negativas associadas a fazer algo "como uma menina" ao mostrar meninas e jovens adultas a envolverem-se em várias atividades, como correr, lançar e lutar de forma confiante e competente. Esta campanha visou redefinir a expressão “como uma menina“ para passar a significar forte, inteligente e capaz, promovendo assim uma mensagem positiva de igualdade de género.
Este tipo de conteúdo promocional serve como ferramenta transformadora que celebra a diversidade, a força e o empoderamento entre todos os géneros, fazendo com que esses esforços não apenas vendam produtos, mas também defendam uma mudança cultural mais ampla em direção à inclusão e igualdade.
Por meio de representações inclusivas e diversas, o Marketing pode ajudar a desmantelar estereótipos, mostrando que certos papéis e capacidades não estão intrinsecamente ligados a nenhum género em particular. Campanhas que destaquem mulheres em posições de liderança, homens em papéis de cuidadores ou indivíduos não binários a prosperar em várias atividades, profissões e ambientes, podem contribuir para uma mudança nas percepções sociais.
Além disso, ao destacar estas questões por meio da sua música, a Taylor Swift envolve-se numa forma de Marketing Social que aumenta a consciencialização e incita discussões sobre igualdade de género entre a sua vasta audiência.
Refletindo…
Ao chegar ao final deste ensaio crítico, e tendo evidenciado a relevância fundamental da igualdade de género para o Marketing e para a Sociedade como um todo, comecei a pensar "Por que é que isto - sendo apenas uma mulher entre bilhões de pessoas no mundo - importa para mim? Posso realmente fazer alguma diferença significativa?"
Isto levou-me a recordar inúmeras conversas e momentos de introspecção que tenho tido, desde que me lembro, sobre como é comum começarmos as nossas vidas a acreditar, fervorosamente, que vamos mudar o Mundo, e à medida que crescemos - e o Mundo, inevitavelmente, nos muda primeiro - desanimamos e começamos a sentir que as nossas ações individuais são inúteis, e que este tipo de tópicos e objetivos, como alcançar a igualdade de género, parecem maravilhosos em teoria, mas inatingíveis na prática.
Aqui é onde acredito que o Marketing pode atuar como uma ferramenta muito positiva e poderosa, pois - como vi acontecer e como me aconteceu pessoalmente - as práticas de Marketing empoderadoras e sustentáveis - como vídeos significativos e bem pensados e anúncios de marcas honestas, por exemplo - podem, realmente, inspirar, mover pessoas e reacender aquela sensação esperançosa de quando éramos crianças, acima mencionada, bem como incitar ações verdadeiramente impactantes.
Então, é por isso que importa para mim...
PS:. Aconselho vivamente a visualização da campanha #LikeAGirl :) https://youtu.be/5yLXrWLvwAo
Fontes:
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